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NOTÍCIAS /ALCOOLISMO

Dr. Cláudio Luis de Freitas Costa, 44 anos, psiquiatra, é diretor do Núcleo Hospital Dia de Saúde Mental em Moema. Ele reconhece que o álcool é a primeira porta para todas as outras drogas. "Vivemos numa sociedade que permite o uso do álcool. Em algumas famílias existe um rito de iniciação para os meninos. O primeiro gole de cerveja que ele toma com o pai pode ser motivo de brincadeiras. O primeiro porre do adolescente vai ser lembrado como uma piada. As pessoas não têm noção do risco que sofrem. O número de homens alcóolatras é muito maior do que o número de mulheres. As mulheres costumam beber solitariamente. Os homens se reúnem depois do futebol, festas familiares e no happy-hour e muitas vezes estimulam os filhos homens a beberem junto com eles. O pai pode ser aquele modelo que consegue aguentar beber uma quantidade grande de álcool e por isto é reconhecido como forte. Fraco é aquele que no primeiro copo já ficou tonto ou não se sente bem. Muitas famílias não reconhecem que o álcool é uma droga como qualquer outra. Nossa sociedade usa o álcool como um ritual para aproximar as pessoas. O brinde, o vinho durante o almoço de domingo, a cerveja na praia. Mas é preciso ter noção do perigo. Ultrapassar os limites pode ser uma viagem sem volta".

Alguns sintomas podem servir para detectar o alcoolismo:

1. Falta de controle. O indivíduo não consegue parar no primeiro copo. Mesmo que ele só beba socialmente, quando ele toma contato com a bebida, não consegue estabelecer um limite para a bebida.
2. A bebida lhe fez companhia. Não tem necessidade da presença dos amigos para beber. A bebida é a sua companhia.
3. Hábito diário. Bebe todos os dias. Chega em casa estressado e logo corre para beber algo e aliviar a tensão. Esse hábito pode acabar se transformando em dependência.
4. Embriaguez patológica. Existem pessoas que alteram radicalmente o comportamento. Os tímidos tornam-se agressivos; os agressivos tornam-se doces. Algumas podem ter um rebaixamento do nível de consciência e chegarem a cometer crimes. Usam a droga para quebrar barreiras que não conseguiriam quebrar sem o uso da droga.

Muitos alcóolatras negam que sejam alcóolatras. Fazem questão de dizer que têm controle sobre si mesmos e que conseguem parar de beber quando quiserem. Esse tipo de reação só atrapalha e impede que peçam ajuda para se libertarem do vício.

O alcoolismo é uma doença: é a síndrome da dependência do álcool. O álcool é a prioridade da vida do sujeito. Ele deixa de se relacionar com o resto do mundo e reduz sua vida à bebida. Como doença, tem que ser tratada e pode ser controlada.

O sucesso do tratamento depende da vontade do doente assim como da boa presença e estímulo da família. Os pacientes que têm apoio da família conseguem um resultado mais rápido. Famílias que acusam ou que se negam a ajudar o paciente na sua recuperação, retardam todo o processo. O alcóolatra não é um coitadinho e não é a ovelha-negra da família. É alguém que está doente e precisa de um tratamento médico e psicológico adequados. Os tratamentos são longos, caros e é possível que existam recaídas. Mas é a única chance de obter a cura e se liberar do vício. O primeiro passo é reconhecer que é dependente e precisa de apoio médico para recuperar a saúde mental e física. A passagem do tempo dificulta o processo de cura. Pois os órgãos vão sendo destruídos e o indivíduo vai perdendo a vitalidade e o controle sobre sua própria vontade".

"O álcool ajuda a mascarar a depressão. O alívio que o álcool traz nos primeiros momentos dá uma sensação de bem estar e anestesia por algum tempo. O sujeito fica "alegrinho" e leve. Continua bebendo sem perceber que a dependência física está se instalando. Muitos homens habituam chegar em casa e tomar um drink para aliviar a tensão. Com o tempo já não se preocupam em procurar pelos filhos ou abraçar a mulher. Já chegam procurando pela bebida, pois ela é a prioridade. Aos poucos vão precisando de doses maiores para terem a sensação de desinibição e euforia iniciais. Depois existe uma desconexão com a realidade e muitos desenvolvem quadros psicóticos. Não existe nenhuma comprovação científica sobre uma pré-disposição genética para o alcoolismo. A experiência mostra que é o hábito da bebida que vai tornando o indíviduo dependente. A droga se infiltra e toma conta do corpo e da mente dele. É comum que o alcóolatra acumule perdas. Perdas financeiras, morais e afetivas. Não é à toa que se associa o bêbado à sarjeta".

O que será que leva alguém a beber ? Segundo Dr. Cláudio, a bebida é uma droga de uso universal. Muitos começam a beber porque não sabem lidar com as frustrações. Outros querem esquecer seus fracassos. Mas o comprometimento da saúde do indivíduo é grande: impotência, perda de memória, insuficiência hepática, acidentes vasculares e pancreatites são algumas consequências do uso contínuo do álcool. O corpo se deteriora e a frustração e o fracasso é o próprio sujeito. Acaba a auto-estima e o indivíduo perde o controle sobre sua vida. Não é mais capaz de fazer escolhas e seguir seu destino.

"Situações de crise e transição podem levar alguém a procurar alívio no álcool. Mas isto só vai acontecer se essa pessoa não tiver outros recursos. Se alguém está estressado, pode se aliviar pelo esporte, ginástica, terapia individual, trabalho voluntariado, yoga, algum hobby como pintura, pesca, dança, música...existem modos saudáveis de encontrar alívio e resposta para fases difíceis da vida. É importante que os pais estejam atentos aos adolescentes pois eles vivem uma fase de crise, transformação e muitas dúvidas. Podem usar o álcool para escapar da confusão interior e fazerem de conta que são fortes e ultrapassam seus limites. Os pais precisam prestar atenção ao comportamento dos filhos e serem firmes em relação às drogas. É muito fácil ter acesso ao álcool. No bar da esquina, nos super-mercados, lojas de conveniência ou na geladeira dentro de casa podem encontrar diversos tipos de bebida. E por isto o álcool é a primeira porta para todas as outras drogas".

"Os pais que percebem que o filho está bebendo devem dialogar. Não devem ser agressivos ou se fazerem de vítimas. É preciso se aproximar desse filho, conversar sobre valores, metas, ideais e não podem aceitar o vício. A situação é delicada e não existe espaço para a hipocrisia. Devem oferecer outras opções de desenvolvimento, outras atividades. Pais presentes, participativos e amigos, mantendo uma posição firme, dando limites para o álcool. A PREVENÇÃO é o único caminho. E para prevenir é preciso ter consciência da destruição que o álcool pode causar. A chance de resgatar alguém do alcoolismo é muito maior no início do desenvolvimento da doença. Quanto mais se demora a detectar o problema ou a tomar uma atitude, vai ficando mais difícil puxar essa pessoa para o lado da saúde, da luz e do controle. Ela se distancia e vai perdendo a conexão com a vida e se vinculando cada vez mais com a bebida".

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